terça-feira, 16 de outubro de 2018

Análise não-verbal: Lua Blanco e Thaís Araújo. Problema técnico em programa da Rede Globo?

"Popstar" é um programa ao vivo da Rede Globo aonde, semanalmente, se apresentam artistas (a maioria não tem contato com a música) cantando músicas de sua preferência. Esses famosos são avaliados por um time de dez jurados, cuja a função é avaliar as apresentações e dar notas de acordo com seus critérios particulares.
Além das notas dadas pelos jurados, o público de casa e uma platéia interativa também dão notas às apresentações.
No programa do dia 14/10 aconteceu algo inesperado. Após se apresentar, a artista Lua Blanco estava ouvindo as notas dadas por usa apresentação quando de repente, a nota do "público de casa" estava zerada.
A apresentadora Thaís Araújo repassou o que aconteceu, dizendo que foi um "erro técnico".
Será que pela comunicação não-verbal é possível identificarmos se houve mesmo um erro técnico?

Vamos à análise:

Em 0:19, ao notar que a nota do público estava zerada, a apresentadora Thaís Araújo apresenta uma contração no corrugador, formando rugas verticais entre as sobrancelhas.
O evolucionista Charles Darwin denominou esse músculo de "músculo da dificuldade". Darwin reparou que qualquer dificuldade física ou mental faz com que esse músculo se contraia, devido ao abaixamento das sobrancelhas. De acordo com Paul Ekman, além da dificuldade, essa contração pode acontecer também em momentos de perplexidade, confusão, concentração e determinação.
Nesse momento, podemos concluir que Thaís Araújo estava confusa com o que estava acontecendo. Podemos interpretar esse contexto também como uma descrença. A mente emocional ainda estava processando o que acabara de ver.
Lua Blanco por usa vez exibe uma sutil elevação da pálpebra superior fazendo com que a esclera fique mais visível. Exibe a expressão de medo.

Ainda em 0:19, Thaís Araújo verbaliza: "Zero?!"
Podemos notar uma elevação unilateral da extremidade esquerda da boca (bucinador). Expressão de desprezo.

A partir de 0:26, Thaís diz: "Não. Tá. Estamos consertando. Tá"
Essa quebra de logica no discurso pode se dar pelo fato dela estar com um ponto eletrônico, que a coloca em contato direto com a direção do programa. Nesse momento, podem estar falando com ela, e ela respondendo no ar
No momento em que ela fala "estamos consertando" podemos observar um aumento na frequência das piscadas, gestos de cabeça descoordenados. Esse conjunto de gestos indica ansiedade e nervosismo com o que está acontecendo.

A partir de 0:28, Thaís diz: "Tivemos um problema técnico".
Esse momento acontece uma coisa bem interessante. Podemos notar que Thaís afasta a cabeça de forma bem sutil. 
O afastamento de cabeça e/ou do corpo são chamados de "Fenômenos de distanciamento". Nos indica que a agente não acredita, não gosta ou não concorda com o que está vendo ou ouvindo..

Em 0:43 após pedir o intervalo, Thaís Araújo diz: "Público de casa!"
Podemos notar que Thaís exibe uma expressão de medo social devido a elevação das sobrancelhas em suas porções interna e externa, a elevação das pálpebras superiores, tensão nas pálpebras inferiores, depressão do lábio inferior, estiramento horizontal dos lábios.
Essa expressão acontece quando estamos em um contexto em que temos que explicar uma situação desconfortável, constrangedora.
Além do medo, podemos notar que Thaís eleva o ombro esquerdo unilateralmente, demonstrando insegurança, falta de comprometimento.
Ao mesmo tempo inclina a cabeça para a esquerda, indicando submissão.
De acordo com a análise do discurso, essa frase é completamente desnecessária. Thaís Araújo já tinha explicado aos espectadores que houve um problema técnico.
Podemos interpretar esse conjunto gestual como um pedido para o público continuar votando. Ao mesmo tempo, a apresentadora não acredita / sabe que o problema não foi relacionado a falta de engajamento do público.
A concorrente Lua Blanco exibe um sorriso falso.



SUMÁRIO: Não podemos confirmar com toda a certeza o que foi falado através do ponto eletrônico da apresentadora, mas podemos afirmar que Thaís Araújo demonstra muito nervosismo e tensão - algo completamente normal para o contexto.
No final existe um pedido para que o público continue votando.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Análise não-verbal: Chris Brann x Marcelle Guimarães. Sequestro do filho. Caso internacional

Marcelle Guimarães foi fazer mestrado nos EUA e lá conheceu o médico Christopher Brann. Em 2005 começaram a namorar, e vieram a se casar em 2008. Um ano após o casamento, Marcelle e Chris tiveram um filho, Nico.
Marcelle, em 2012, pediu o divórcio alegando "diferenças irreconciliáveis".
O ex-casal compartilhava igualmente a guarda do filho, até que Marcelle pediu autorização do ex-marido para que ela e Nico pudessem vir ao Brasil para o casamento do irmão. Marcelle assinou um documento se comprometendo a levar o filho de volta aos EUA na data determinada. Esse retorno nunca aconteceu.
Chris luta desde então para reaver o filho.
Os pais de Marcelle são acusados de estarem envolvidos no sequestro do pequeno Nico, ajudando a filha a estruturar todos os detalhes para que ela e o filho pudessem permanecer no Brasil
A defesa de Chris alega desrespeito a Convenção de Haia, assinado em 1980 entre vários países, incluindo Estados Unidos e Brasil.

Vamos à análise:

Em 0:39 - 0:40, podemos notar que Chris Bran ao falar do filho que está afastado, demonstra sinais de tristeza genuína devido a contração a contração e elevação da parte interna das sobrancelhas, queda dos cantos da boca, olhos marejados e voz embargada.

A partir de 0:49, Marcelle diz: "Cheguei... à... minha decisão de não voltar mais... para proteger, para salvar... a vida de meu filho, salvar a minha vida".
Ao falar que ela chegou à decisão de não voltar mais, ela inclina a cabeça lateralmente. Esse gesto chamado de "Head Tilt" indica submissão; havendo portanto, incongruência com o fato de ter tomado uma decisão. Podemos observar também a contração do bucinador no lado esquerdo da face, indicando desprezo.
Ao verbalizar a palavra "salvar", existe um aumento brusco no volume da voz. Esse aumento indica uma intenção de dar mais importância a essa palavra no intuito de convencer, criar empatia.
Existem pausas desnecessárias. A pausa é um recurso do cérebro para ganhar tempo na estruturação da frase, confirmando o desejo de convencer.
Durante a frase "... a vida de meu filho, salvar a minha vida", Marcelle olha para baixo e direita. Esse direcionamento do olhar é comum quando o agente deseja fugir da situação, tem vergonha, constrangimento. Na palavra "salvar" podemos notar que sua voz sai trêmula, indicando tensão e nervosismo.
A decisão de se mudar dos EUA teve como motivo distanciar Marcelle dos momentos negativos vividos. Existe uma intenção de se auto-convencer que o filho também precisa se afastar do pai.

A partir de 1:38 vemos veracidade e congruência em seu discurso, ao falar como conheceu o ex-marido.
Esse momento serve para determinarmos a "linha de base" (como a pessoa se comporta em um estado de neutralidade, tranquilidade) de Marcelle.
Podemos notar que em seu estado normal, seu discurso é mais fluido, seus movimentos e gesticulação se dão de forma mais coordenada.

Em 1:55, ao falar do filho, Chris emite um sorriso verdadeiro de felicidade. Podemos ver a contração do zigomático maior em uma intensidade media-alta e a contração dos orbiculares dos olhos (responsável pela formação dos "pés de galinha") em uma intensidade sutil.

Em 2:20, enquanto fala que já tinham havido vários episódios de raiva, Marcelle direciona seu olhar para direita, em sentido horizontal. De acordo com a PNL, esse movimento ocular pode estar ligado à criação de algum estímulo auditivo ou buscando as palavras certas para dizer.
Poemos reparar também na postura de Marcelle. Ela se encontra completamente na defensiva, desconfortável.
Apesar dos movimentos e gestos congruentes com o contexto, é importante observar que Marcelle não segue um padrão comportamental.
Padrão comportamental é o que se espera que o indivíduo sinta, como se espera que ele se comporte em determinado contexto.
Nesse caso, Marcelle sofreu episódios de raiva de seu ex-marido. O padrão comportamental para esse contexto seria Marcelle sentir raiva, nojo, tristeza, medo por tudo que ela viveu. Essas emoções não estão presentes
Podemos concluir que durante o casamento, houveram sim momentos de raiva, mas esses momentos parecem não afetá-la.

Em 2:26, ao falar que Chris pegava seu braço e contorcia, Marcelle é congruente.
Ela realiza um gesto ilustrador, mostrando como seu ex-marido fazia.

Em 2:28, ao falar: "A gravidez teve um episódio muito forte. Um dia ele se chateou muito comigo e me empurrou da escada..."
Podemos notar que Marcelle eleva o ombro direito, fecha os olhos, massageia as mãos e ao final inclina a cabeça para baixo.
Elevar o ombro direito ("Shoulder Shrug"), de acordo com Joe Navarro é um indicador de falta de comprometimento ou insegurança.
Fechar os olhos ("Eye Shielding") indica o desejo de não visualizar o que está falando. 
Massagear as mãos é um gesto pacificador, e sua função é acalmar diante de um momento de ansiedade, nervosismo e tensão.
A inclinação de cabeça para frente/baixo nos diz que há uma intenção de Marcelle de criar uma conexão com a repórter. Em alguns contextos, pode denotar um desejo de convencimento.
Podemos concluir que todos esses gestos em conjunto, indicam que esse evento, em específico, não aconteceu, ou aconteceu de forma diferente de como ela está narrando.
Em outras palavras, ela é desonesta em relação ao fato, total ou parcialmente.


Ao falar que o ex-marido a empurrou da escada (em 2:33 - 2:34), Marcelle eleva os dois ombros. Em nossa cultura esse gesto pode também estar ligado à uma intenção de se livrar da culpa (David Leucas).

Em 2:36, a repórter pergunta se ela estava grávida, e Marcelle resposta afirmativamente e, depois, em 2:37, ela responde: "porque eu já tava com barrigão, e foi escada abaixo mesmo, com toda a força"
Nesse momento podemos ver que Marcelle inclina a cabeça lateralmente e faz um gesto ilustrador congruente de que estava grávida.
Explicar que já estava com barrigão é uma explicação desnecessária para esse contexto. Há uma intenção de convencer e potencializar o acontecimento, tornando-o mais grave.
A inclinação de cabeça é chamado de "Head Tilt" e indica submissão, desejo de convencer.
Dizer "foi escada abaixo mesmo com toda a força" é um argumento desnecessário devido ao excesso de detalhe. Dizer que foi empurrada da escada já é suficiente para contar a violência que sofreu.
De acordo com estudos de Statement Analysis, o excesso indica uma forte intenção de convencimento, de criar empatia, dramatizar o evento.

Em 2:42, a repórter pergunta: "Você foi pro hospital?"
Logo depois, Marcelle responde: "Eu não fui pro hospital... nesse dia. Eu até pedi pra ir pro hospital. Só que eu acho que ele ficou com medo de me levar pro hospital".
Ao falar que não foi pro hospital, Marcelle realiza um gesto de fechar os olhos chamado de "Eye Shielding" indicando desejo de não visualizar o que está a frente ou o que está sentindo ou lembrando. Normalmente indica uma emoção negativa.
Depois de verbalizar "Eu até pedi para ir pro hospital...", Marcelle emite uma micro-expressão de tristeza pela elevação da parte interna das sobrancelhas e contração do corrugador (responsável pelo abaixamento das sobrancelhas), ambos em intensidade muito sutil; há também a diminuição do ângulo da boca (em intensidade sutil) e a elevação do queixo em uma intensidade mais alta (foto acima).
Ao falar que acha que ele ficou com medo de levá-la ao hospital, podemos notar que ambos os ombros se elevam indicando incerteza. Há também a transferência de culpa.
No âmbito da análise do discurso, podemos reparar na repetição da palavra "hospital". Essa repetição indica que essa palavra é de extrema importância e sensibilidade para o discurso de Marcelle. Funciona como uma espécie de reafirmação de que o hospital era importante. Os estudos de Mark McClish mostram que a repetição de palavras confirmam uma intenção de persuasão.

Em 2:53, Chris diz: "Não é verdade. Isso é totalmente uma mentira."
Podemos notar que existe um aumento na frequência das piscadas, indicando um alto nível de ansiedade ao responder essa pergunta.
Ao falar as palavras "verdade" e "mentira" ele realiza um "Eye Shielding" (gesto de fechar os olhos). Esse gesto realizado em um contexto de defesa e durante palavras importantes para a confiabilidade de seu discurso, indicam desonestidade.
Ao final de seu discurso, ele realiza um gesto de sobreposição do lábio inferior no lábio superior, juntamente com uma pressão nos lábios e os olhos fechados. Esse conjunto indica culpa, vergonha.
Chris se sente culpado.

Logo após, a repórter pergunta: "Você nunca a agrediu quando ela estava grávida?"
Em 2:58 - 2:59, Chris responde: "Com certeza que não"
Sua resposta é feita com os olhos fechados seguido de uma aumento na frequência das piscadas. Indicam nervosismo e ansiedade. Nesse contexto de defesa, podemos concluir que há desonestidade em seu discurso.
Ao verbalizar a palavra "não" sua voz sai trêmula, sendo um indicativo de incerteza devido a liberação de hormônios ligados ao estresse que contrai o músculo da garganta.

Em 3:00 a repórter diz para Chris que: "Ela (Marcelle) disse que o relacionamento de vocês sempre foi muito difícil e com episódios de violência"
Logo após, Chris diz: "Eu concordo que a gente tinha uma relação muito difícil, mas de violência?!... assim que... como as pessoas pensam... não foi assim"
Durante todo esse trecho, podemos notar uma forte inquietação corporal, com momento de "Eye Shielding" por parte de Chris, indicando um alto índice de nervosismo.
Ao final ele se perde no discurso também devido ao nervosismo.
Podemos concluir que existe desonestidade nesse trecho. O relacionamento deles era violento.

A partir de 3:40, Chris é verdadeiro em seu discurso. Existe congruência entre o verbal e o não-verbal.
O fato que Chris está narrando realmente aconteceu.

Em 4:02, Chris diz que deu um tapa nela. Há congruência novamente.
Chris faz um gesto ilustrador de dar um tapa.

Em 4:13, Chris diz que nunca tinha dado um tapa em Marcelle.
Nesse momento, ele eleva os dois ombros. De acordo com Charles Darwin, o gesto dele elevar os ombros pode indicar desconhecimento ou impotência perante uma situação.
De acordo com a melhor doutrina, a elevação dos ombros transmite as seguintes mensagens não-verbais: "Eu não sei", "Eu não me importo", "O que importa?", "Que diferença faz?", "Que escolha eu tive?", "O que eu poderia fazer?"
O fato dele não ter batido em Marcelle antes desse episódio, não significa que ele não deu um tapa nela posteriormente.

Em 4:16 ao dizer que ele não sabia o que fazer, podemos notar que ele eleva novamente os ombros, mas nesse caso, a elevação dos ombros tem a intenção de proteger diante de algum estímulo que causa ou causou medo. Essa elevação de ombros é chamada de "Turtle Effect".
A elevação das sobrancelhas na porção interior e exterior, a elevação nas pálpebras superiores e o "Turtle Effect" nos indicam que Chris está experienciando a emoção de medo.

Em 4:24, Marcelle diz que Chris a ameaçou dizendo: "Olha, eu vou conseguir, eu vou levar...ééé... o seu filho de você. Você nunca mais vai ver o Nico."
Uso de palavra desnecessária ("olha") e uso de agregador verbal (ééé...), ambos funcionam como um recurso pro cérebro ganhar tempo para criar uma fala.
Não há logica nessa frase, tendo em vista que Marcelle morava no EUA. Chris não poderia levar o filho para lugar algum.
Não-verbalmente, podemos notar que Marcelle está em uma postura defensiva, de proteção.

Em 4:29, Marcelle diz: "Se ele americano, de lá, daquela cidade... eu brasileira... Eu tinha muito medo. Eu nem sabia como as coisas funcionavam legalmente."
Durante a palavra "medo" ela eleva os dois ombros de forma mais contundente, indicando uma incerteza
Enquanto Marcelle fala "... eu nem sabia como as coisas funcionavam legalmente", ela demonstra uma inquietação corporal, indicando alto nível de nervosismo. 
Marcelle diz que tinha medo, mas não explica o motivo para ela ter medo. Ao falar das leis americanas ela fica nervosa.
Existe uma intenção de se proteger, mas ela usa o desconhecimento das leis americanas como um recurso para justificar sua decisão. Marcelle não acredita no que está falando.

Em 4:53, a repórter pegunta: "Em que momento você decidiu se divorciar?"
Marcelle responde: "Ele me ameaçou com armas. Três armas. Ele tava com as armas expostas e ficou me mostrando, me ameaçando"
Ao falar que Chris a ameaçou com armas, logo no começo da resposta, podemos notar que o corpo de Marcelle faz um movimento brusco para frente. Esse movimento indica tentativa de ser crível em sua resposta. O fato do movimento ser brusco indica nervosismo.
Ao falar que eram três armas e elas estavam expostas, há congruência. Ele mostra o número três com os dedos e ilustra como e onde as armas estavam expostas (foto acima).
Ao falar que ele ficou mostrando e ameaçando, existe uma diferença entre o ritmo gestual e o ritmo da fala, mostrando inconsistência no argumento.
Podemos concluir que ele realmente mostrou armas para Marcelle, mas não a ameaçou de forma expressa.

Em 5:04, a repórter pergunta à Chris: "Em algum momento você chegou a mostrar armas de fogo a ela com a intenção de ameaça-la?"
Enquanto faz a pergunta, podemos ver Chris direcionando seu olhar horizontalmente para esquerda. Esse movimento ocular, de acordo com a PNL indica uma lembrança auditiva. Provavelmente ele está lembrando de quando falou com Marcelle das armas.

Ainda durante a pergunta, no final dela, Chris exibe um sorriso de desprezo devido a contração do zigomático maior, do bucinador com uma maior intensidade no lado direito e dos orbiculares dos olhos. Chris eleva a cabeça confirmando como um sinal de orgulho/arrogância.
Chris confirma não-verbalmente que houve esse episódio em que mostrou armas para Marcelle.

Em 5:13, Chris responde: "Com certeza que não"
Ele nega com a cabeça, porém responde com os olhos fechados, indicando não-visualização.
Houve uma ameaça velada.

A partir de 5:15, Marcelle diz que Chris a segurou e bateu nela na frente do filho.
Enquanto verbaliza que ele a segurou, Marcelle realiza um gesto com a palma da mão para baixo. Esse gesto indica dominância, poder. 
Existe uma intenção maior de Marcelle em mostrar as agressões sofridas por ela, do que mostrar como as agressões aconteceram.
Podemos perceber essa intenção porque ao invés dela ilustrar o que está falando, com um gesto de segurar, ela realiza um gesto que demonstrar dominância e assertividade em seu discurso. 

Em 5:52, Marcelle diz: "Depois de ter tido o pedido de divórcio, ele... se conteve mais..."
Ao dizer que "ele se conteve mais", Marcelle realiza um gesto ilustrador de contenção. Há congruência; portanto, veracidade.

Em 5:58, a Repórter pergunta se ele parou de agredi-la.
Marcelle responde: "Foi. E eu também não me aproximava".
Novamente vemos congruência. Marcelle faz um gesto ilustrador de evitar, com as mãos e se afasta com o corpo, indicando distanciamento.

Em 6:41, a repórter pergunta: "Você já tinha premeditado. Não, eu não vou voltar?"
Marcelle responde negativamente com a cabeça e mantém os olhos fechados durante toda a resposta, por mais tempo que o necessário.
Indica desonestidade. Marcelle já tinha pensado em não voltar mais com seu filho.

Em 6:54 - 6:55, Marcelle diz: "E eu tinha muito medo do Nico com ele. Muito medo... porque ele tem compulsão sexual. Ele via coisas na frente do Nico..."
Durante todo esse trecho, podemos notar que o corpo se movimenta em ritmo diferente da fala, demonstrando uma inquietude corporal, sinalizando uma provável tentativa de convencimento. Quando o agente quer convencer, seus gestos são realizados de forma mais ampla e mais mecânica.
Ao dizer que tinha medo, Marcelle exibe uma expressão falseada de medo. A expressão é falseada porque a potência de arranque da expressão é muito alta.
Ao falar que Chris via coisas na frente do filho, Marcelle exibe uma expressão de desprezo devido a contração do bucinador no lado esquerdo da face (foto acima).

A partir de 7:16, o dizer que "todos chegaram na mesma conclusão", Chris realiza movimentos rápidos com a cabeça de um lado para outro. Esse movimento é chamado por Jack Brown como "Head Wiggle" e indica confiança, assertividade, dominância.
No entanto, ele não nega que tinha compulsão sexual.

Em 10:14, Marcelle diz que os argumentos de que seus pais ajudaram no sequestro de seu próprio
filho são falsos.
No momento em que ela diz isso, ela eleva os dois ombros indicando um desejo de se proteger do que está falando. Nesse contexto a elevação de ombros denota o medo de ser pega contando uma mentira.

Em 10:15 - 10:16, a repórter pergunta: "Eles (pais) não te ajudaram a planejar uma fuga?"
Marcelle diz que não e exibe uma expressão de surpresa fazendo transição para o medo.
Podemos concluir que Marcelle ficou surpresa pela pergunta. O medo é uma das emoções ligadas à desonestidade. Nesse caso é o medo de ser pega mentindo.
Marcelle continua sua resposta: "... de jeito nenhum."
Nesse momento podemos notar que seus gestos estão descoordenados indicando nervosismo e ansiedade com a resposta.

Em 10:20, Marcelle diz: "E nem eu planejei uma fuga"
Existe, nesse momento, a elevação dos dois ombros de forma mais ampla. Mais uma vez, indica desonestidade no discurso.
Marcelle continua: "Eu decidi quando cheguei aqui, de ficar"
Nesse momento, a cabeça se movimenta para sua esquerda e ela gesticula em sentido oposto. Esse desalinhamento corporal indica desonestidade pois existe uma quebra da harmonia nas direções dos movimentos.

Em 10:55 Marcelle diz: "Tô sentindo...ééé... uma tristeza profunda dessa vingança, que tá sendo... uma vingança de mim... que tá refletindo neles..."
Durante o agregador vocal "ééé", Marcelle eleva os dois ombros demonstrando, nesse caso, incerteza com o que está dizendo ou sentindo.
Ao falar "tá sendo..." ela realiza um gesto artificial sem contexto e sem motivo, da direita para a esquerda. (foto acima). Gestos que não são naturais são considerados gesto mecânicos e estão ligados à desonestidade pois tem a única função de distrair o interlocutor e ganhar tempo para pensar no que irá dizer em seguida.
No momento em que fala: "vingança de mim", ela realiza um gesto de supinação com as mãos que é o giro para fora com as mãos, indicando incerteza em suas palavras. Esse gesto tema mesma função da elevação bilateral com os ombros.
Além de todos esses sinais não-verbais, não vemos sequer um resquício de tristeza em sua face. A ausência de emoção é tão importante quanto a presença dela.

Em 11:52, a repórter pergunta como o filho lida com toda essa situação.
Marcelle diz que é bem difícil para ele. Nesse momento exibe uma expressão de tristeza genuína pela contração no corrugador e no músculo responsável pela elevação da parte interna das sobrancelhas, ambos de forma bem sutil.
Podemos notar que sua voz falha. Essa falha se dá como reação da emoção de tristeza que tensiona o músculo da garganta. Esse fenômeno é chamado socialmente de "nó na garganta".
Ela sente tristeza ao falar do filho.


SUMÁRIO: Há congruências e incongruências tanto de Marcelle Guimarães como de Chris Brann.
De fato, houveram episódios de violência de Chris em relação a Marcelle, como torções no braço, empurrão, dentre outros.
O episódio, narrado por Marcelle, em que ela foi empurrada da escada ainda grávida contém indícios de desonestidade por parte de ambos. Marcelle pode ter sido desonesta em relação a como aconteceu esse fato em específico, ou à intensidade em que aconteceu; e a desonestidade de Chris pode estar ligada ao acontecimento em si, ou a algum outro episódio de violência. Em outras palavras, o empurrão da escada pode nunca ter acontecido ou acontecido de uma forma diferente da narrada por Marcelle; ambos os cenários são congruentes com os sinais de desonestidade mostrados por ela. Quanto a Chris, os sinais de desonestidade mostrados por ele, ao negar o empurrão da escada podem estar relacionados com um episódio de violência que houve próximo a uma escada (mas não da forma como foi narrado por Marcelle), ou estar relacionado a algum outro episódio de violência, que não foi comentado nesse vídeo.
O que podemos notar é que Marcelle usa esses episódios para acusar Chris e justificar o fato de trazer seu filho para o Brasil de forma definitiva. Bem como, usa esses episódios em que Chris errou e projeta a ideia de que ele não é um bom pai. Em outras palavras, há indícios de que Marcelle projeta seus sentimentos negativos com Chris na relação entre Chris e seu filho
Marcelle já tinha planejado vir, em definitivo, para o brasil com seu filho e seus pais a ajudaram de alguma forma.
Tanto Marcelle quanto Chris amam o filho.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Análise não-verbal: Homem acusado de matar o capoeirista Moa do Katendê. Discussão política?

No dia 7 de outubro, um dia depois das eleições, o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, mais conhecido como Moa do Katendê foi esfaqueado treze vezes após se envolver em uma discussão sobre política, em um bar de Salvador.
Segundo a Polícia Militar, a vítima teria discordado da posição política do suspeito, e esse como resposta cometeu o crime.
O suspeito é Paulo Sérgio Ferreira de Santana e será o nosso analisado. O que sua comunicação não-verbal tem a nos dizer?

Vamos à análise:

Em 0:02 a 0:04, Paulo Sérgio que no dia, antes do crime acontecer, ele estava conversando com o dono do bar.
Ele afirma verbal e não-verbalmente. Há congruência, portanto veracidade

A partir de 0:05, o suspeito diz: "Esse senhor aí, que veio a óbito aí, que a gente teve essa confusão, levantou me chamando de viado... e negro. Viadinho negro; viadinho negro..."
Ao dizer as frases: "levantou me chamando de viado..." e "viadinho negro; viadinho negro", podemos notar uma elevação bilateral dos ombros. Esse gesto é considerado um emblema e seu principal significado é "desconhecimento", porém também pode significar insegurança no que está dizendo.
Alguns autores como Mark Knapp defendem que em algumas culturas esse gesto pode indicar transferência de culpa.
Podemos notar que existe uma pausa desnecessária entre as palavras "viado... e negro". Essa pausa quebra a fluidez do discurso e indica que o cérebro precisa de tempo para reformular um pensamento. Nesse contexto, podemos concluir que esses xingamentos não foram proferidos pela vítima.
A repetição da frase "viadinho negro" indica um desejo de convencimento por parte de Paulo; pois a repetição é desnecessária.
Nessa foto podemos notar que um olho está fechado enquanto o outro está aberto (nesse contexto, o gesto é realizado de forma inconsciente). Podemos marcar como assimetria facial.
De acordo com Paul Ekman, assimetria facial é um forte indicativo de desonestidade.

Em 0:14 o suspeito diz: "Eu não disse nada com você; eu não falei nada com você".
Existe um aumento na velocidade com que verbaliza as palavras, fazendo com que ele embole algumas palavras. Há também um aumento do "pitch" vocal deixando sua voz mais aguda.
No começo desse trecho, novamente podemos ver a elevação dos ombros.
As alterações verbais indicam um alto nível de nervosismo e tensão. Isso acontece porque quando estamos sob hormônios ligados ao estresse como cortisol, existe a tensão no músculo da garganta e essa tensão provoca uma mudança no tom de voz. O aumento da velocidade está ligado a uma intenção de passar a mensagem de forma mais imediata.
O fato não aconteceu da forma como o suspeito está narrando.

A partir de 0:19, Paulo diz: "O dono separou também"
Nesse momento podemos notar dois gestos seguidos: o chamado olhar enviesado e a projeção de língua, chamado de "Tongue Jut".


O olhar enviesado indica desconfiança e insegurança no que está dizendo;










A projeção de língua, segundo Joe Navarro indica auto-incriminação e culpa. Como se o corpo estivesse expressando as ideias de "Eu fiz besteira", "Saí ileso", "Eu errei", etc.










A partir de 0:24, Paulo diz: "Todos viram também, e hora nenhuma... Peço, continuo pedindo desculpa a todos os familiares dele. Hora nenhuma foi de intenção. Me entreguei"
Sob a ótica da Análise do Discurso (Statement Analysis) essa frase é completamente racional e desonesta, isso porque, sua estrutura está contaminada pela ausência de lógica, quebra da ordem cronológica e má formulação verbal
Esses elementos podem ser observados quando ele diz:
(1) "... hora nenhuma..." e não continua com a sua linha de raciocínio;
(2) "Hora nenhuma foi de intenção. Me entreguei".  Além da frase de início ("hora nenhuma foi de intenção") ter sido mal formulada, não há lógica no que está falando (Se ele não teve a intenção, por qual motivo ele se entregou?)
Ao verbalizar "Hora nenhuma foi de intenção" podemos notar também que sua voz perde a intensidade ficando com o volume mais baixo. Desejo de omitir e incerteza.

Em 0:33 após o repórter afirmar que foram doze facadas, Paulo diz: "Não, mas aí eu estava me embolando com ele no chão"
Paulo não se defende e não nega as doze facadas; sua justificativa é completamente deflexiva, ou seja, não fala diretamente das doze facadas. Além disso podemos notar uma dificuldade em verbalizar e gagueira no começo de sua fala.
Esse conjunto indica desejo de fugir da situação e ansiedade ao falar desse tema.
Não-verbalmente, existem sutis elevações no ombros demonstrando, nesse contexto, insegurança

Em 0:38, o suspeito diz: "Não, não. Não foi nada por trás" se referindo ao fato das facadas terem sido dadas por trás.
Nesse momento Paulo eleva sutilmente a sobrancelha em um gesto chamado "Skeptical Eyebrow" indicando ceticismo e dúvida no que está falando.
Em, sua face podemos ver uma expressão de medo pela elevação da pálpebra superior responsável pelo aumento da esclera (parte branca dos olhos), acionamento do depressor do lábio inferior e a contração do risórios responsável pelo estiramento horizontal dos lábios.
Apesar do suspeito negar verbalmente, as facadas realmente foram por trás.

Em 0:50 - 0:51 o suspeito afirma: "Eu não disse nada".
Podemos notar um desequilíbrio nos ombros. Eles sobem de forma descoordenada e o ombro direito permanece mais elevado que o esquerdo. Esse gesto indica desonestidade pois há um conflito interno entre a verdade e o que ele está verbalizando no momento (dissonância cognitiva).
Em sua face, novamente, o medo, pela elevação da parte interna e externa das sobrancelhas, contração do corrugador (responsável pelo abaixamento das sobrancelhas), elevação das pálpebras superiores e contração do risórios estirando os lábios horizontalmente.

Em 0:54, Paulo afirma que o fato não aconteceu por discussão política.
Nesse momento notamos novamente a elevação bilateral dos ombros, indicando incerteza no seu argumento. Incongruência corporal indica desonestidade no discurso.

Em 0:59, Paulo diz: "Eu estava conversando normal com o dono do bar..."
Novamente vemos a elevação bilateral de seus ombros por um tempo maior. Nesse caso, podemos interpretar esse gesto como o chamado "Turtle Effect", que significa um desejo de se proteger, se defender. Tem esse nome porque as tartarugas quando querem se proteger de seus predadores entram em seus cascos. Nesse caso, o agente eleva os ombros para retrair a cabeça.
Adotamos essa postura quando não estamos confortáveis e temos pouca confiança no que estamos dizendo.

Em 1:01 Paulo diz que ele estava no bar conversando sobre futebol. Nesse trecho acontece algo de interessante.
No momento em que ele fala isso, ele realiza movimentos rápidos com a cabeça, de um lado para outro. Esse gesto é chamado por Jack Brown como "Head Wiggle" e indica assertividade e segurança no discurso; Por outro lado existem indicadores de ansiedade, como por exemplo o aumento no tom de voz e movimentos corporais descoordenados.
Podemos concluir que de fato Paulo ia ao bar e conversava sobre futebol, mas naquele momento específico o assunto não foi esse.

A partir de 1:15, Paulo diz: "Eu bebendo exal.... fiquei exaltado fui em casa aí fiz... aconteceu esse fato"
A palavra "exaltada" foi cortada e logo depois ele quebra a fluidez do discurso adicionando uma paula desnecessária após o "fiz"
Esses recursos indicam omissão de informações importantes com o intuito de se proteger. Em outras palavras, Paulo em um primeiro momento, de forma consciente, não deseja expor que estava exaltado, bem como, não deseja expor o que fez.
Apesar desse desejo consciente de omitir, o inconsciente realiza pequenos vazamentos mostrando o que o consciente deseja que permanece em segredo.

Em 1:19 - 1:20 Paulo diz que se entregou [à polícia]. Nesse momento ele eleva os dois ombros, demonstrando insegurança em suas palavras.
Mesmo com o rosto em perfil, podemos reparar que existe um estiramento horizontal na lateral esquerda, indicando medo.
Há incongruência. Paulo não se entregou de fato.

Em 1:27, o suspeito diz: "Não conheci. Não conheci ele"
Nesse momento ele faz o seguinte conjunto gestual quase simultaneamente:

Ele nega com a cabeça de forma congruente ao mesmo tempo em que eleva os dois ombros mostrando desconhecimento.










Inspira mais profundamente realizando uma macroexpressão conhecida como "Sniff". Essa expressão aparece para camuflar uma emoção de nojo devido a contração do corrugador, franzimento do nariz, a elevação do lábios superior, ambos em uma intensidade alta (por isso, macroexpressão).
Juntamente ele emite um gesto de projeção de língua indicando ansiedade e auto-incriminação.

Realiza o chamado de "Lip Purse", que consiste em projetar os lábios para frente. Esse gesto é um sinal valioso de desacordo (Joe Navarro) ou intenção de omitir informação total ou parcialmente (Jack Brown).








Logo em seguida podemos observar que seus lábios são voltado para dentro da boca. Esse gesto, de acordo com Pierre Weil, indica mutismo, ou seja, há um desejo de reprimir uma ideia ou uma emoção.








Novamente podemos ver o "Sniff" - dessa vez, de forma mais sutil -  camuflando a emoção de nojo.












Nesse trecho descrito acima podemos ver que há um coeficiente de sinceridade ao afirmar que não conhecia a vítima. Porém exitem algumas considerações a serem feitas:

(1)"Conhecer" é diferente de "saber". Conhecer alguém indica que existe um certo nível de proximidade, e até intimidade; saber sobre alguma pessoa subentende-se algo mais superficial, há ausência de aproximação (Marcello de Souza). Quando Paulo Sérgio diz que não conhece, ele é sincero; mas não exclui o fato de que ele sabe quem era a vítima.
(2) Existem gestos que indicam ansiedade e omissão. Essa omissão pode estar ligada ao fato dele saber de quem se trata, ou o mais provável, que é a omissão referente ao fato. Existe pontos, detalhes, que o suspeito não deseja falar.


Em 1:37, Paulo diz: "Eu lamento, eu não conhecia ele."
Nesse momento ele inclina a cabeça para a direita deixando o pescoço a mostra e eleva os dois ombros.
Esse conjunto gestual é um emblema e indica desconhecimento.
Paulo, não conhecia a vítima anteriormente ao fato.

Em 1:39, Paulo diz: "Lamento muito. Eu tô sentido, né?"
A ausência de emoção é tão importante quanto a presença dela. Não existem elementos que mostram um arrependimento genuíno.
O uso da expressão "né?", de acordo com estudo de Statement Analysis, indica dúvida
Paulo não afirmou que está "sentido". Ele usa uma pergunta no lugar de uma afirmação.
A ausência da palavra "arrependido" confirma essa desonestidade.

Durante grande parte do vídeo podemos notar que Paulo mantém a contração do músculo frontalis juntamente com o corrugador (na foto acima vemos um exemplo desse momento)
A união desses músculos foram rugas no centro da testa, que são chamadas "rugas do pesar", isso porque os músculos que se contraem e são responsáveis pela sua formação, foram chamados por Charles Darwin de "Músculo do Pesar" ("Grief Muscle").
O especialista Jack Brown diz que quando o agente permanece com esse músculo contraído durante grande parte do tempo enquanto está fazendo seu discurso, há fortíssimo indício de que o agente está atuando e não sendo sincero no que está transmitindo.


SUMÁRIO: Paulo, matou Moa por divergências políticas; e existe indícios de que existe uma outra motivação que o suspeito não deseja expor.
O fato não aconteceu como Paulo está narrando. Sua intenção é de transferir a culpa para a vítima.
Não há arrependimento por parte de Paulo Sérgio.